sábado, outubro 3, 2026
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Paraná está em uma das regiões com maior incidência de tornados no mundo

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Sul do Brasil, junto com Paraguai, Uruguai e parte da Argentina, forma o segundo principal corredor de tornados do planeta, atrás apenas do Meio-Oeste dos Estados Unidos

O Paraná está inserido em uma das regiões do planeta mais favoráveis à ocorrência de tornados. De acordo com especialistas, a região Sul do Brasil, formada por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, juntamente com o Paraguai, o Uruguai e o nordeste da Argentina, constitui o segundo maior corredor de ocorrência desses fenômenos no mundo.

A primeira posição é ocupada pelo Meio-Oeste dos Estados Unidos, região que concentra cerca de 80% dos tornados observados no planeta.

Os tornados são colunas de ar em rotação que se estendem de uma nuvem de tempestade até a superfície. Apesar de normalmente terem curta duração — em geral, até 30 minutos —, podem apresentar ventos extremamente fortes e provocar grandes danos.

Segundo estimativa da Prevots (Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas), uma rede independente formada por pesquisadores brasileiros, argentinos e norte-americanos, o Brasil registrou, neste ano, 81 tornados e fenômenos semelhantes, como landspouts e trombas d’água. O levantamento não considera o episódio registrado no dia 6.

Em 2025, a mesma rede contabilizou 92 registros no país.

Aumento dos registros

A meteorologista Rachel Albrecht, chefe do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), aponta uma tendência de crescimento no número de tornados registrados no Brasil nos últimos anos.

“Desde 2020, o número de tornados aumenta a cada ano no Brasil. Há uma tendência de aumento na severidade das tempestades, e com isso vêm tornado e granizo”, afirma a pesquisadora.

As tempestades severas também podem provocar chuvas intensas, descargas elétricas, fortes rajadas de vento e granizo. A ocorrência de um desses fenômenos, no entanto, não significa necessariamente que os demais também irão acontecer.

Os tornados são frequentemente associados a tempestades do tipo supercélula, caracterizadas pela presença de correntes de ar rotativas dentro de grandes nuvens de tempestade. Também podem se formar em linhas de instabilidade do tipo arco, quando uma parte do sistema de tempestades avança mais rapidamente que as extremidades.

Um dos principais ingredientes para a formação de tornados é o chamado cisalhamento do vento, que corresponde à mudança na velocidade e na direção dos ventos conforme aumenta a altitude.

Por que o Sul do Brasil é tão propenso?

A região Sul está localizada em um dos principais corredores de tempestades severas do mundo. O cenário é favorecido pelo encontro de massas de ar quente e úmido provenientes da região amazônica com massas de ar frio que avançam a partir do sul do continente.

A Cordilheira dos Andes também exerce influência nesse processo. Segundo o professor Leonardo Calvetti, da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a cadeia montanhosa funciona como uma espécie de canal para a circulação atmosférica.

O pesquisador compara o fenômeno ao comportamento da água ao passar por um funil: ao encontrar a Cordilheira dos Andes, os ventos quentes e úmidos provenientes da Amazônia aceleram, contribuindo para o transporte de umidade em direção ao Sul.

Esse transporte está relacionado aos chamados rios voadores, corredores de umidade atmosférica que desempenham papel importante no clima da América do Sul.

Nos Estados Unidos, o cenário apresenta uma diferença ainda mais acentuada entre as massas de ar. Correntes quentes e úmidas vindas do Golfo do México encontram massas de ar mais seco, especialmente em áreas como Texas, Oklahoma e Kansas.

Na América do Sul, a diferença de umidade entre a Amazônia e a região do Pampa é menor. Segundo o pesquisador Ernani Nascimento, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), isso ajuda a explicar por que os tornados são menos frequentes no continente sul-americano do que no Meio-Oeste norte-americano.

Estudos ganharam força no Brasil

Apesar da ocorrência do fenômeno, as pesquisas sobre tornados no Brasil eram relativamente escassas até o início dos anos 2000. A partir daquele período, uma nova geração de pesquisadores passou a ampliar os estudos e registros sobre tempestades severas no país.

Nascimento destaca a importância de pesquisadores pioneiros, como a professora Maria Assunção Faus da Silva Dias, da USP, que contribuiu para a documentação de tornados no território brasileiro.

O primeiro registro fotográfico conhecido de um tornado no Brasil foi feito em 1975, pela Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A imagem mostra uma formação em formato de funil durante uma tempestade na região.

Com o avanço das pesquisas e do monitoramento, especialistas afirmam que o conhecimento sobre os fenômenos pode contribuir para melhorar os sistemas de alerta e auxiliar na criação de políticas públicas destinadas a reduzir os impactos sobre a população e os prejuízos materiais.

El Niño e mudanças no clima

Outro fator analisado pelos especialistas é a influência do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e que pode alterar os padrões climáticos no Sul do Brasil.

Rachel Albrecht afirma que o fenômeno pode contribuir para aumentar a instabilidade atmosférica e a ocorrência de tempestades severas.

“Estamos assistindo a um aumento do número de tempestades severas. Se isso é consequência do El Niño, só saberemos mais para a frente, mas é provável que sim. Os anos de El Niño são mais ou menos um prenúncio de como será a mudança climática”, explica a pesquisadora.

Para os especialistas, embora ainda seja necessário aprofundar os estudos para estabelecer relações diretas entre o aumento dos registros, o El Niño e as mudanças climáticas, o crescimento da ocorrência e da intensidade de eventos extremos reforça a importância do monitoramento meteorológico e da preparação das cidades para situações de emergência.

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