terça-feira, setembro 15, 2026
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Enfermeiro transforma corte de cabelo em resgate à autoestima de pacientes em hospital 100% SUS

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Com meta de 100 atendimentos até o final de 2026, iniciativa mostra como um gesto simples pode fortalecer vínculos e humanizar o ambiente hospitalar

“Estou me sentindo renovado. Dá mais autoestima, mais energia”, resumiu Hélio logo após deixar a cadeira improvisada de barbeiro. Depois de enfrentar mais um infarto, Hélio Cardoso de Lima, de 62 anos, voltou a ocupar um leito do Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba (PR). Paciente que realizou um transplante renal na própria instituição há 16 anos, ele retornou para um novo tratamento cercado pela atenção da equipe multiprofissional. Mas foi um gesto simples, realizado dez dias após a internação, que o fez sorrir novamente: um corte de cabelo. “Ganhei muito mais do que um novo visual. É um cuidado que, para muitos pacientes que estão aqui, representa acolhimento, dignidade e um sinal de esperança para a alta”, afirma.

Por trás da cadeira está o enfermeiro cearense Jonatas de Sousa, conhecido pelos corredores como o “enfermeiro barbeiro”, que pretende alcançar a marca de 100 cortes de cabelo até o fim de 2026. Há cerca de nove meses no Hospital Universitário Cajuru, Jonatas conta que incorporou o corte de cabelo à rotina assistencial como uma forma de fortalecer o vínculo com os pacientes. “Percebi que, além do nosso trabalho essencial, oferecer um corte de cabelo poderia ser uma porta de entrada para nos comunicarmos melhor com o paciente, fortalecendo a autoestima e contribuindo para a recuperação emocional de quem permanece internado por semanas ou até meses aqui”, relata.

A ideia nasceu em 2020, durante a pandemia de covid-19. Na época, Jonatas cuidava de um paciente jovem diagnosticado com o vírus, que enfrentava, além da gravidade da doença, o isolamento e a distância da família. Ao perceber o sofrimento emocional, decidiu cortar o  cabelo dele utilizando uma tesoura comum. A mudança foi imediata e o paciente passou a demonstrar mais disposição e esperança. Anos mais tarde, ele encontrou o enfermeiro pelas redes sociais para agradecer, contando que aquele gesto havia sido fundamental durante sua recuperação. O episódio motivou Jonatas a dar continuidade à iniciativa no Hospital Universitário Cajuru, onde nunca mais deixou de oferecer os cortes.

Foto: Divulgação

O enfermeiro percebeu que a máquina de cortar cabelo também poderia abrir espaço para conversas que dificilmente aconteceriam de outra forma. “Enquanto cortava o cabelo de um paciente que enfrentava um quadro grave de depressão e aguardava encaminhamento para tratamento especializado, foi construída, aos poucos, uma relação de confiança entre ele e a nossa equipe”, conta.

Ao receber alta, o paciente fez questão de deixar uma mensagem que Jonatas guarda até hoje. “A base de toda a minha melhora foi você e sua equipe. Deixo isso claro.” Para o enfermeiro, esse é o maior significado do projeto. “O corte de cabelo nunca foi sobre estética. Muitas vezes, é apenas a porta de entrada para que o paciente se sinta acolhido, volte a conversar, recupere o ânimo para viver e permita ser cuidado de forma integral”, afirma.

Após ficar conhecido pelos corredores do hospital, Jonatas recebeu dos colegas um kit profissional de barbearia para dar continuidade aos atendimentos. Ele explica que o corte de cabelo é oferecido principalmente a pacientes em longas internações. “O cuidado vai muito além da aparência. Sempre respeitamos a vontade de cada pessoa e seguimos protocolos rigorosos de higiene, com todos os instrumentos higienizados individualmente após cada atendimento”, explica.

Foto: Divulgação

Jonatas faz questão de destacar que o trabalho é coletivo. “Cada profissional envolvido durante a internação do paciente é fundamental para a sua recuperação. Técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, médicos e psicólogos compartilham diariamente essa responsabilidade. O corte de cabelo representa apenas mais uma ferramenta de humanização que contribui para  o paciente seguir o caminho da alta”, declara.

O reconhecimento veio recentemente. A iniciativa foi homenageada pelo Projeto Servir, programa institucional que valoriza práticas de humanização no hospital. Mais do que um prêmio, Jonatas considera a homenagem um “incentivo para seguir transformando pequenos gestos em grandes mudanças na vida de quem passa pelo hospital”.

Fotos: Divulgação

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