Campanha destaca abandono, negligência e guarda responsável; em Santa Catarina, mais de 5,6 mil casos de maus-tratos foram registrados em 2025
O Agosto Caramelo, campanha nacional de conscientização sobre a proteção de cães e gatos, reforça neste ano que os maus-tratos aos animais vão muito além das agressões físicas. Situações como abandono, falta de alimentação e água, ausência de atendimento veterinário e manutenção dos animais em ambientes inadequados também configuram violência e são consideradas crime pela legislação brasileira.
Em Criciúma, a ONG Quero Adotar aproveita a campanha para ampliar o debate sobre adoção responsável, combate à negligência e guarda consciente. A mobilização também chama atenção para a chamada Teoria do Elo, que relaciona casos de crueldade contra animais à violência praticada contra pessoas vulneráveis, como mulheres, crianças e idosos.
Os números reforçam a preocupação. Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública de Santa Catarina apontam que o Estado registrou 5.630 ocorrências de maus-tratos contra animais em 2025, um aumento de 329% em relação a 2015, quando foram contabilizados 1.312 casos. Somente entre os dias 1º e 25 de janeiro deste ano, 371 animais foram identificados como vítimas desse tipo de crime.
Desde outubro de 2024, a ONG Quero Adotar atua no resgate, acolhimento, tratamento e encaminhamento de gatos para adoção responsável. Segundo a coordenadora da entidade, Laura Coan, o resgate é apenas o início de um longo processo de recuperação. “Quando um animal chega até uma ONG depois de ser abandonado, o resgate é apenas o primeiro passo. Muitas vezes, ele precisa passar por atendimento veterinário, internação e castração, além de reaprender a confiar até estar preparado para uma nova família. Por trás de cada resgate existe uma longa rede de cuidado”, afirma.
O que caracteriza maus-tratos
Além da violência física, a legislação considera maus-tratos qualquer ação ou omissão que provoque dor ou sofrimento desnecessário ao animal. Entre as situações estão o abandono, privação de água e alimento, falta de assistência veterinária, confinamento inadequado, exposição às condições climáticas sem proteção e métodos de punição que causem sofrimento.
Nos casos envolvendo cães e gatos, a Lei Federal nº 14.064/2020 prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda do animal. Se o animal morrer em decorrência dos maus-tratos, a pena pode ser aumentada.
Bem-estar animal
A campanha também reforça o conceito das Cinco Liberdades, referência internacional para avaliar o bem-estar animal. Entre elas estão a garantia de alimentação e água, ausência de dor e doenças, proteção contra medo e estresse, conforto físico e liberdade para expressar comportamentos naturais da espécie.
Adoção ainda enfrenta preconceitos
Levantamento do Panorama da Adoção no Brasil – ONGs, divulgado em junho de 2026, mostra que idade, aparência e condições de saúde ainda dificultam a adoção de cães e gatos. Animais idosos, de pelagem preta ou portadores de doenças como FIV e FeLV estão entre os que permanecem por mais tempo à espera de um lar.
Segundo Laura Coan, muitos desses animais possuem comportamento tranquilo e são capazes de criar fortes vínculos com seus tutores, mas ainda enfrentam preconceitos que reduzem suas chances de adoção.
Mais de mil gatos adotados
Desde o início das atividades, a Quero Adotar já encaminhou mais de mil gatos para adoção. Atualmente, a organização mantém cerca de 50 animais sob seus cuidados, entre gatos acolhidos em abrigos, clínicas veterinárias e lares temporários.
A entidade também depende de doações para custear alimentação, medicamentos, consultas, castrações e demais despesas. Além de contribuições financeiras, a ONG recebe ração, areia, brinquedos e outros materiais para os animais, bem como roupas e acessórios destinados à sua loja beneficente.
Como denunciar
Em Santa Catarina, denúncias de maus-tratos podem ser feitas de forma anônima pelo Disque-Denúncia 181, pela Delegacia Virtual de Proteção Animal da Polícia Civil ou, em casos de flagrante e emergência, pelo telefone 190, da Polícia Militar.
Quando a violência contra animais estiver associada à violência doméstica, a orientação é que o caso também seja comunicado ao Ligue 180, canal nacional de atendimento à mulher.










